O ano em que as exportadoras fizeram feio

Por Bruno Villas Bôas

26 de dezembro de 2011.

O ano da crise europeia marcou a ferro e fogo as ações das empresas brasileiras exportadoras de matérias-primas. O setor de papel e celulose teve o pior desempenho da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) neste ano, com um tombo de 48,21%, liderado pelos papéis de Fibria e Suzano. Também entre as fortes baixas estão os setores de siderurgia (34,75%) e mineração (33,08%). Mas nem tudo foi perdido. Investidores tiveram uma folga com ações das empresas de energia, que mostraram porque são chamadas de “defensivas” ao avançar 19,75% no ano até a última quarta-feira. Os cálculos consideram o retorno mediano dos setores, a partir da base de dados da consultoria Economatica, e incluem papéis com mais de R$ 1 milhão de negócios por dia.

Segundo André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, as perdas foram influenciadas pela revisão do crescimento da economia mundial para os próximos anos, além das incertezas sobre a zona do euro. Isso provocou queda nos preços das commodities pelo mundo. Empresas desses setores caíram mais fortemente que o Ibovespa, principal índice do mercado brasileiro, que recuou 18,25%.

— Foi um ano muito volátil e de extremos. Começou com preocupações sobre a inflação e recomendação de ações de commodities. E terminou com crise na Europa, juros em queda e menor exposição às exportadoras — explica Perfeito.

No caso da Vale, as ações preferenciais (PNA, sem voto) da mineradora recuaram 15,75% no ano e as ordinárias (ON, com voto) caíram 22,80%. Um dos eleitos para 2011, o papel da companhia foi pressionado pela renegociação do preço do minério de ferro com a China e problemas com o navio Vale Beijing em Ponta da Madeira, em São Luís (MA).

Dentro de setores, desempenhos opostos

Já o setor de petróleo fechou o ano com um desempenho intermediário, com uma baixa de 16,69%. O desempenho foi fortemente influenciado pelos resultados da Petrobras, que encolheu 16,69% nas ações preferenciais — por coincidência, o mesmo do setor — e 20,69% nas ordinárias.
Ivan Guetta, sócio da gestora GAP, pondera que dentro dos setores existem papéis com dinâmicas e desempenhos diferentes. É o caso do setor de construção. O setor caiu 29,07% no ano, uma das maiores baixas, pressionado pela aceleração da inflação. Mas dentro dele estão tanto os papéis ordinários (ON, como voto) da Gafisa que tom- baram 63,33% no ano, quanto da JHSF Participações, que avançou 53,86% no período.

— É importante, portanto, também acompanhar o que acontece no dia a dia de cada empresa, o que exige dedicação do investidor — explica.

Entre os setores mais impor- tantes, o melhor desempenho foi do elétrico, que subiu 19,75% no ano e confirmou a fama de investimento “defensivo”. Também em forte alta, as ações de empresas de “software e dados”, que inclui as processadoras de cartão de crédito Cielo e Redecard, avançaram 47,53%.

— Os papéis que dependem menos do ciclo de crédito e menos ligados à economia global foram melhores, especialmente os que têm balanços menos alavancados e expectativas de resultados acima da média — explica Guetta.

Laep foi o mico do ano e MPX liderou ganhos

Essas ações são consideradas defensivas porque distribuem uma boa parcela dos lucros ao investidores, os chamados dividendos. E por serem considerados defensivos, são mais procurados na crise, o que valoriza os papéis.

Os fundos de investimentos e as corretoras ainda estão elaborando suas recomendações de ações para o próximo ano. Essas carteiras devem ser divulgadas no começo de janeiro. Segundo analistas, as apostas devem seguir numa linha mais defensiva.

Isoladamente, o pior investimento de 2011 foi a ação da Laep, holding controladora da marca Parmalat. Investidores não gostaram das captações de recursos da empresa no mercado e entraram com uma série de queixas contra a empresa na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O papel de classe A da empresa — um recibo de uma ação listada originalmente em Luxemburgo — acumulou baixa de 94,14% e praticamente virou pó.

Os outros piores investimentos em ações no ano foram os papéis B2W Varejo ON (71,58%), Vanguarda Agro ON (69%) e HRT Petróleo ON (63,33%). Entre as maiores perdas, além da crise externa, existem problemas pontuais e cada companhia: endividamento elevado, prejuízo recorrentes, erros de gestão.

Nas maiores altas, destaques para os papéis de energia e defensivos: MPX Energia ON (79,18%), Cielo ON (50,62%) e Redecard ON (48,87%).

Jornal O Globo